Na Rua Sacadura Cabral, a poucos quarteirões do Museu de Arte do Rio e do AquaRio, Maria José da Silva, 67 anos, mora no mesmo sobrado há quatro décadas. "Quando eu cheguei aqui, era armazém e oficina", lembra. "Hoje tem museu do outro lado da rua e restaurante caro na esquina. Mas a minha rua continua sem iluminação decente e com buraco na calçada."

A história de Maria José ilustra o contraste da Zona Portuária reurbanizada: transformação visível nos grandes equipamentos, persistência de problemas cotidianos nas ruas adjacentes. O Porto Maravilha — nome comercial do projeto de requalificação de cinco milhões de metros quadrados — completou a maior parte das obras de infraestrutura previstas. A questão agora é quem se beneficia do espaço reconquistado.

O que foi entregue

Entre 2010 e 2025, a área recebeu o VLT, a demolição da Perimetral, o Museu do Amanhã, o MAR, o AquaRio, o Cidade das Artes e dezenas de edifícios comerciais e residenciais de alto padrão. Segundo a Companhia Docas, cerca de 70% da área de intervenção foi requalificada — número que inclui demolições, novas construções e recuperação de imóveis históricos.

Investimento total estimado: R$ 8,2 bilhões em obras de infraestrutura e incentivos de outorga onerosa, conforme relatório da Prefeitura de 2024.

O VLT, com 28 km de extensão e ligação ao metrô na Carioca, é talvez a entrega mais tangível para moradores. Antes da remoção da Perimetral, o bairro era cortado por um elevado que separava a orla do interior. Hoje, a orla é acessível a pé — mas o tráfego de veículos redistribuiu-se pelas ruas internas, gerando novo tipo de pressão.

Moradia: promessa e realidade

O plano original previa a construção de 24.800 unidades habitacionais na área, incluindo habitação de interesse social. Até 2025, foram entregues cerca de 9.200 unidades — menos de 40% da meta. Dessas, a maioria é de mercado livre, com preços incompatíveis com a renda média dos moradores históricos de Santo Cristo, Gamboa e Saúde.

A gentrificação é tema recorrente nas conversas com comerciantes e moradores. Aluguéis na Rua do Gamboa subiram em média 62% entre 2018 e 2025, segundo levantamento do Observatório das Metrópoles com base em anúncios de imobiliárias. Pequenos comércios de bairro — mercearias, oficinas, bares — cederam espaço a cafeterias, galerias e lojas de decoração.

"Não sou contra o museu. Mas o bairro que eu conheço está sumindo", diz João Pedro Almeida, dono de uma oficina mecânica na Gamboa há 22 anos. "Meus clientes antigos foram embora. Os novos moradores levam o carro na concessionária."

Turismo e espaço público

O fluxo turístico cresceu de forma expressiva. O AquaRio recebe cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano; o Museu do Amanhã, cerca de 900 mil. A orla da Praça Mauá virou ponto de encontro nos fins de semana, com eventos, feiras e apresentações culturais.

Para moradores, o espaço público melhorou em alguns aspectos — mais iluminação na orla, calçadas mais amplas, acesso ao VLT — mas a programação cultural raramente dialoga com a história dos bairros ao redor. Iniciativas como o festival Porto Sem Preconceito, que inclui moradores na curadoria, são exceção, não regra.

Transporte e acessibilidade

A integração do VLT com o metrô na Carioca e a rodoviária Novo Rio facilitou deslocamentos. Mas a Zona Portuária ainda é mal servida por ônibus municipais nas ruas internas, e a estação do VLT mais próxima de Gamboa fica a 15 minutos a pé para muitos moradores idosos.

A ciclovia da orla, inaugurada em 2023, conecta a Praça Mauá ao Aterro do Flamengo — mais um avanço para mobilidade ativa. O uso, porém, concentra-se nos fins de semana; em dias úteis, o trecho serve mais turistas e trabalhadores do que moradores locais.

O que falta

Três lacunas se destacam nas entrevistas e na análise documental. A primeira é habitação acessível: sem cumprimento da meta de unidades populares, a área corre o risco de se tornar um bairro exclusivamente de alto padrão. A segunda é a manutenção das ruas internas — calçadas, iluminação, drenagem — que não acompanharam o investimento na orla. A terceira é a participação dos moradores históricos nas decisões sobre o futuro da área.

Maria José continua no sobrado da Sacadura Cabral. "Gosto de ver o museu iluminado à noite", admite. "Mas gostaria que a luz chegasse até a minha calçada também."

Publicado em 2 de junho de 2026.